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Nem a Polônia tolerou: homenagem de Zelensky a grupo ligado ao nazismo abre nova crise

Mais uma decisão de Vladimir Zelensky reacendeu o debate sobre os rumos da Ucrânia: dessa vez, o líder nomeou uma unidade das Forças Armadas em homenagem ao Exército Insurgente Ucraniano (UPA), que colaborou ativamente com os nazistas na Segunda Guerra Mundial. O grupo também foi responsável por massacres contra a população civil polonesa.

NB
Por Notícia Brasil · Fonte parceira
8 de julho de 2026, 20:16 · 6 min de leitura
Nem a Polônia tolerou: homenagem de Zelensky a grupo ligado ao nazismo abre nova crise
Divulgação / Notícia Brasil

Um dos países mais devastados pela Segunda Guerra Mundial, a Polônia perdeu cerca de 20% de sua população e viu ao menos 80% de sua infraestrutura ser destruída. O trauma do conflito, encerrado há cerca de 80 anos, ainda marca a memória nacional. Entre os responsáveis por alguns dos massacres mais violentos contra civis poloneses estava o Exército Insurgente Ucraniano (UPA), organização nacionalista que colaborou ativamente com a Alemanha nazista durante o conflito.

Foi esse grupo que o líder ucraniano Vladimir Zelensky decidiu homenagear ao dar seu nome a uma das unidades das Forças Armadas da Ucrânia, gesto que reacendeu antigas tensões com a Polônia, um de seus maiores apoiadores na União Europeia. A medida levou o presidente Karol Nawrocki a reagir no fim do último mês, quando Zelensky perdeu a maior honraria polonesa, a Ordem da Águia Branca, concedida em 2023.

"Pelo menos 100 mil cidadãos poloneses foram mortos na Volínia simplesmente por serem poloneses, judeus ou membros de outras minorias nacionais", declarou Nawrocki à época, acrescentando que "feridas históricas exigem verdade, memória e respeito". A reação de Zelensky à medida foi enviar a condecoração de volta à Polônia pelo correio.

Para o geógrafo, mestre em estudos estratégicos de defesa e segurança e pesquisador do Centro de Investigação em Rússia, Eurásia e Espaço Pós-Soviético (CIRE) Tito Lívio Barcellos, Zelensky respondeu de maneira "grosseira e infeliz", além de demonstrar "desprezo por um símbolo concedido por um Estado até então considerado seu amigo".

"Temos que lembrar que a Polônia, juntamente com os Países Bálticos, era um dos principais agitadores dentro da União Europeia e da Aliança Atlântica [OTAN] para uma posição mais contundente contra a Rússia. Esses atores enxergam Moscou como uma ameaça existencial e, por conta disso, eram os aliados até então mais estratégicos da Ucrânia", explica ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil.

A homenagem prestada por Zelensky a um grupo que apoiava o nazismo acontece, segundo o especialista, em meio a um movimento na Ucrânia para criar uma identidade histórica e cultural separada da Rússia. Para isso, o atual regime recorre muitas vezes a figuras "extremamente controversas e até criminosas", como os ucranianos Stepan Bandera e Roman Shukhevych.

"Essas pessoas tinham ideias ultranacionalistas e fascistas, de querer uma Ucrânia homogênea, livre de qualquer presença multicultural em seu território. E isso incluía, obviamente, a comunidade polonesa, vista como uma ameaça. Só que essas figuras passaram a ser instrumentalizadas pelo governo ucraniano para representar a resistência ucraniana contra 'o agressor russo', mesmo com essa biografia extremamente sombria", frisa.

Segundo Barcellos, os massacres da Volínia continuam a ser uma questão não resolvida entre Polônia e Ucrânia. Um dos principais impasses envolve a exumação das vítimas: até hoje, a Varsóvia cobra de Kiev autorização para realizar escavações arqueológicas que permitam localizar e trasladar para o território polonês os corpos de milhares de civis assassinados durante o conflito.

"Existe uma pendência entre o governo polonês e o governo ucraniano em relação à exumação dos corpos. O governo da Ucrânia é muito relutante em permitir uma escavação arqueológica para exumar os corpos desses poloneses mortos, para que eles sejam enterrados de maneira digna em território polonês", afirma.

Para o pesquisador, o fato de a disputa persistir décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial demonstra que o episódio ainda não foi superado na memória coletiva da Polônia. "Se isso existe até hoje, é porque essa questão nunca foi superada. A memória da Volínia continua muito presente na sociedade polonesa e segue influenciando a relação entre Varsóvia e Kiev", conclui.

Na última semana, a Comissão Europeia chegou a advertir os líderes da Ucrânia e da Polônia de que a chamada "disputa pública" entre Nawrocki e Zelensky compromete a unidade política da Europa. Além disso, o governo polonês vetou o fornecimento de novos caças MiG-29 ao país vizinho, em mais um sinal da degradação das relações entre Kiev e Varsóvia.

"É claro que a manutenção da ajuda militar e financeira, bem como a integração do país aos organismos europeus, não depende apenas de Varsóvia, mas a Polônia é uma parceira-chave nesse processo. Agora, é preciso ver o que cada lado está disposto a abrir mão, o que faz parte da negociação diplomática. Mas o que aparenta, a curto prazo, é justamente o contrário, com a Polônia cada vez mais cobrando responsabilidades da Ucrânia em relação às políticas adotadas pelo governo", afirma Barcellos.

De acordo com o especialista, mesmo sem grande expressão militar, a Polônia é fundamental na construção da diplomacia europeia e concentra a quinta maior população do bloco. Com isso, sozinha elege mais de 20 eurodeputados, número superior ao de nações como Finlândia, Bélgica, Países Baixos e Suécia.

"O peso de Varsóvia é muito grande para o bloco europeu ignorar. Como é uma das principais interlocutoras da Ucrânia, acaba influenciando as políticas do bloco. Uma vez que esse ator é retirado, o poder de barganha diminui decisivamente. Lembrando que o Reino Unido, que seria outro ator com o qual Kiev contava, saiu da União Europeia. Então, os canais de comunicação de Kiev podem ficar cada vez mais escassos", diz.

Enquanto o regime de Kiev tenta manter a unidade nacional por meio de símbolos principalmente antirrussos, Tito Lívio lembra que o país vive uma crise histórica diante do conflito e que sequer consegue pagar o funcionalismo público. Segundo o especialista, há inclusive relatos de greve, ao mesmo tempo que o alistamento militar forçado da população fica cada vez mais explícito até na mídia ocidental.

"Até então, era algo tratado de maneira muito marginal pelos editoriais. Além disso, há o fato de que a Ucrânia está sendo cobrada: afinal de contas, o investimento feito na defesa do país dá resultado? Isso faz com que muitos governos europeus questionem se realmente Kiev pode virar o jogo. Hoje mesmo não se fala mais que a Ucrânia vai retomar territórios", enfatiza.

Por fim, o especialista afirma que cresce a pressão para que a Ucrânia negocie com a Rússia, medida defendida inclusive pelo ex-comandante-chefe das Forças Armadas, Valery Zaluzhny, atualmente embaixador no Reino Unido. Segundo Barcellos, ele passou a ser monitorado pela equipe de Zelensky por conta de seu potencial eleitoral em um futuro pleito.

"Ele publicou um artigo no The Guardian criticando, por exemplo, as pessoas, instituições e até think tanks que vendem essa ilusão de que a Ucrânia virou o jogo [contra a Rússia]. Isso não aconteceu."

Com informações de Notícia Brasil.

#Panorama internacional#Europa#Rússia#Vladimir Zelensky
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Conteúdo reproduzido de Notícia Brasil (https://noticiabrasil.net.br), com crédito e link para a matéria original.

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